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Sobre confiança

30 de julho de 2021 / Balmert Consulting

Neste mês, Paul analisa três acontecimentos semelhantes para examinar a questão da confiança. A maneira como ele conecta tudo pode surpreender você. Ele nos apresenta reflexões muito importantes que todos precisamos compreender.

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“Na sexta-feira, ao meio-dia, em vinte de julho de 1714, a melhor ponte de todo o Peru se rompeu e precipitou cinco viajantes no abismo abaixo.” 
     ~Thornton Wilder
A Ponte de San Luis Rey

Foi um daqueles acontecimentos de grande repercussão que seria impossível não notar: um condomínio de muitos andares desabou no meio da noite. O acontecimento foi catastrófico, trágico — mas nem um pouco inesperado. Três anos antes, um relatório de inspeção constatara que o projeto do edifício impedia o escoamento da água da área externa e apresentava indícios de danos significativos, como concreto rachado e armaduras de aço corroídas. Para piorar, talvez tenham sido tomados atalhos na instalação das armaduras durante a construção, e o recalque do solo era um problema conhecido em outros edifícios da região.
 
Somando-se recalque do solo, água parada e água salgada — tratava-se de um condomínio à beira-mar —, estava claro que esse era um problema que precisava urgentemente de uma solução.
 
Não é como se ninguém tivesse feito nada. Reparos foram realizados alguns anos antes, mas a extensão dos danos revelou-se muito maior do que a solução planejada. Um projeto de US$ 15 milhões estava sendo elaborado, mas um projeto no papel não resolve um problema como esse.  
 
Como em tantas falhas, há muito para os investigadores apurarem. Sem dúvida, algum dia farão isso. Por ora, há muito a aprender com essa tragédia, e não é preciso esperar pela publicação de um relatório oficial para reconhecer o que é óbvio.

Confiança civil
 
Falhas em obras civis como essa são incomuns, mas estão longe de ser inéditas. Algumas décadas atrás, bem no meio do horário de pico, uma ponte da rodovia interestadual 35, em Minneapolis, desabou e lançou motoristas no rio. Assim como no condomínio, um relatório de inspeção havia identificado problemas e reparos foram realizados. Infelizmente, o maior problema não foi descoberto: uma grave falha de projeto, pois as chapas de ligação que uniam os elementos estruturais eram significativamente subdimensionadas. Se isso tivesse sido compreendido, 300 toneladas de equipamentos de construção e materiais de reparo não teriam sido colocadas sobre a ponte. A carga mostrou-se grande demais para a ponte suportar. 
 
Não que qualquer pessoa que passasse por ali pudesse saber de alguma dessas coisas. 
 
Duas décadas antes, uma passarela dentro do hotel Hyatt Regency, em Kansas City, desabou, matando mais de cem pessoas que estavam no hotel para uma grande festa. A causa principal foi um projeto defeituoso — a passarela mal conseguia sustentar o próprio peso — e uma construção inadequada — a passarela inferior foi suspensa incorretamente na passarela acima. Com mais cerca de cinquenta pessoas na passarela, a carga simplesmente se tornou grande demais para ser suportada.
 
Esse problema ficou claro para os investigadores; deveria ter ficado claro para os projetistas. Mas não é algo com que os hóspedes de um hotel pensariam em se preocupar.
 
Há mais de um século — em 1907 —, uma ponte em construção sobre o rio São Lourenço desabou. Quando a estrutura caiu no rio, todas as pessoas que trabalhavam na ponte ficaram feridas; setenta e cinco morreram. A causa da falha era simples: a ponte não conseguia sustentar o próprio peso, muito menos a carga que deveria transportar. Durante a construção, as vigas estruturais começaram a se curvar, mas isso não foi suficiente para interromper o trabalho.
 
Pelo menos não até a estrutura ruir.
 
O que esses três casos têm em comum, além de envolverem pontes? Os especialistas técnicos nos quais se confiava para cumprir seus deveres e responsabilidades de projetar estruturas seguras não fizeram isso. 
 
Um fato que não passou despercebido pelos investigadores. A Comissão da Ponte de Quebec escreveu: “O fato de não….nomear um engenheiro de pontes experiente para o cargo de engenheiro-chefe foi um erro.” O proprietário da empresa de engenharia responsável pelo projeto do Hyatt Regency também atuou como engenheiro-chefe e assumiu total responsabilidade pelas falhas do projeto. O NTSB responsabilizou a empresa que projetou a ponte da I-35 por não ter realizado os cálculos de carga necessários. A supervisão inadequada dos especialistas técnicos do departamento rodoviário, que aprovaram o projeto, também não ajudou. 
 
Talvez você esteja pensando: “Foi preciso voltar cem anos para encontrar três exemplos semelhantes àquele desabamento do condomínio.” E você não estaria errado. Permita-me lembrar: falhas em obras civis como essas são raras. 
 
No mínimo, da próxima vez que atravessar uma ponte, talvez você queira agradecer a quem a projetou corretamente. E, por garantia, agradeça também a quem a construiu de acordo com as especificações e a inspecionou e conservou adequadamente. Caso contrário, você pode acabar como um viajante precipitado no abismo abaixo. Não pense que isso não pode acontecer. 
 
Mas agradecer — com uma clara sensação de alívio — não é algo que se faça em situações como essas. Ninguém faz. Todos nós confiamos que cada ponte seja segura.
 
Na maioria das vezes, elas são.
 
A respeito da confiança
 
Confiar é “agir com fé e segurança”. Confiança é algo que você pratica o tempo todo; ainda assim, raramente para para enumerar — muito menos avaliar — se depositou sua confiança com sabedoria. Se fosse diferente, você deixaria a si mesmo — e a todos os outros — malucos.
 
Mas, quando um condomínio ou uma ponte desaba, convém refletir sobre a questão da confiança: a sua e a dos outros.
 
Algo tão simples quanto seu trajeto para o trabalho serve como exemplo perfeito: quantos atos de fé você pratica durante o percurso? Acredite: assim que começar a contar, vai querer parar, porque isso o deixará maluco. Comece confiando que a direção e os freios do seu carro não falharão. Que os motoristas no sentido contrário permanecerão em suas faixas.  Que os veículos que se aproximam não avançarão placas de pare nem semáforos. Que as pontes que você atravessa suportarão o peso do seu veículo — e de todos os outros. Acrescente um pouco de mau tempo ao exemplo, como ruas molhadas ou baixa visibilidade causada pela neblina, e o grau da sua confiança aumenta.
 
Felizmente, na maioria das vezes, nada acontece no trajeto que prove que sua confiança foi mal depositada.
 
Mas suponha que você não presumisse nada e não confiasse em ninguém. Você não tem tempo, conhecimento especializado, informações nem capacidade para avaliar essas coisas por conta própria. Não tem escolha a não ser confiar em praticamente todos e em tudo.
 
É assim que a vida funciona.
 
Se sua segurança pessoal no trajeto para o trabalho se baseia, em grande parte, na confiança, o que muda quando você chega ao trabalho? Em quem você confia? Em que você confia? E quem confia em você e no trabalho que você realiza para ganhar a vida?
 
É assim que o trabalho funciona.
 
Ensinando líderes
 
Há mais de duas décadas, tenho o privilégio de ensinar princípios e práticas de liderança e gestão de segurança a líderes do mundo inteiro. Depois de passar um tempo de qualidade com cerca de cem mil profissionais do setor como você, fico admirado e impressionado com líderes unidos pelo desejo de garantir que cada um de seus liderados volte para casa vivo e bem ao final de todos os dias.
 
De vez em quando, vejo alguém sentado em minha aula de liderança em segurança que simplesmente parece não se importar. A pessoa fica com o rosto diante do computador, sem o menor interesse ou envolvimento com o que está sendo ensinado. Quando isso acontece, não consigo evitar me intrometer.
 
“Então, qual é sua função na empresa?”, pergunto.
 
“Ah, sou engenheiro, não líder. Meu chefe disse que preciso participar da aula. Mas, na verdade, não sou responsável pela segurança.”
 
“Não é responsável pela segurança. Tem certeza disso?”
 
“Absoluta. Não tenho ninguém trabalhando para mim. Segurança não é minha função.”
 
Da próxima vez que isso acontecer — e acontecerá —, agora terei de fazer mais uma pergunta. “Se segurança não é sua função, então ninguém depende de você para estar seguro, certo?”
 
Essa é uma das coisas óbvias que aprendi com o desabamento daquele condomínio — sem precisar esperar para ler o relatório oficial da investigação — e que colocarei em prática.
 
E você também não precisa esperar.
 
O maior jogo de equipe
 
A esta altura, duvido que você precise da minha ajuda para ligar os pontos. Tudo isso é muito óbvio. Voltar para casa vivo e bem ao final do dia envolve muito mais do que apenas aquilo que cada um de nós faz para se manter seguro. No grande mundo em que vivemos — e no mundo menor em que trabalhamos —, as atividades de projetar, construir, operar, inspecionar e conservar são elementos fundamentais do processo de segurança.
 
Cada pessoa que desempenha uma dessas funções exerce um papel fundamental na segurança. Quando alguém executa mal uma delas, vidas são colocadas em risco. Ironicamente — e até injustamente —, geralmente não é a vida dessa pessoa que fica em perigo, mas a de outras pessoas, que não têm escolha a não ser confiar que ela realizou bem o seu trabalho.
 
Assim como uma ponte que se rompe, um condomínio que desaba serve para lembrar a todos nós uma verdade simples sobre segurança: ela é o maior jogo de equipe!
 
Paul Balmert
Julho de 2021