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Trabalhando para viver

16 de dezembro de 2021 / Balmert Consulting

Neste mês, Paul analisa o que acontece quando as medidas certas não são tomadas para garantir que os perigos não causem danos. Ele examina o caso de Jacob Dean e como decisões — não apenas as de Jacob — levaram a uma tragédia. Independentemente de onde você trabalhe ou do que faça, há muitas lições a aprender com esse caso que podem representar a diferença entre voltar para casa vivo e bem ao fim do dia ou não voltar para casa. A Justificativa para a Segurança depende de fazer a coisa certa.

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“O bem-estar comum era da minha conta…
Os negócios do meu ofício eram apenas uma gota d'água 
no vasto oceano daquilo que realmente me dizia respeito.”

~O Fantasma de Jacob Marley

Há duas décadas, venho falando sobre pessoas que se levantam pela manhã e saem para trabalhar com o objetivo de voltar para casa vivas e bem ao fim do dia. Para muitos, a pandemia virou essa visão simples da realidade de cabeça para baixo: trabalhar para viver passou a significar levantar-se e ir até a mesa da cozinha para uma chamada matinal pelo Zoom. 

Mas há entre nós quem trabalhe para viver levantando-se à tarde e só voltando para casa na manhã seguinte. Trabalho em turnos: algo que conheço muito bem. Meu pai trabalhou como superintendente de turno em uma fábrica da DuPont: dias, tardes, noites — e fins de semana. Logo após concluir o ensino médio, comecei minha carreira na indústria química no turno da meia-noite.

Independentemente do horário de trabalho, no que diz respeito à segurança, na maioria dos dias tudo acontece conforme o planejado e todos voltam para casa vivos e bem. Mas não em todos: há dias em que as pessoas voltam para casa feridas ou sentindo dor ou, pior, acabam no hospital.

Como você sabe, ainda há dias em que as pessoas nunca voltam para casa.

Quando alguém sofre um dano grave no trabalho, normalmente há uma ligação para sua casa. É uma daquelas “ligações”. As circunstâncias exigem que um líder pegue o telefone e faça uma das ligações mais difíceis que um líder terá de fazer. Todas as outras más notícias empresariais — produção, custo, qualidade, cliente — perdem a importância em comparação.

Esse dever penoso normalmente recai sobre o líder da linha de frente: ele está presente, está em serviço e é o responsável. Em muitos casos, conhece a família pessoalmente. Sei de casos em que o líder fazia parte da família.

Pessoalmente, penso que, se o principal executivo fosse obrigado a fazer essa ligação ou ir até a casa da pessoa e dar a notícia pessoalmente, o mundo seria um lugar mais seguro para trabalhar. Reflita sobre as implicações disso e você começará a compreender o verdadeiro significado de “ser responsabilizado” na prática real da liderança.

E se ninguém ligar?

Trabalhando sozinho

Vivemos em uma economia de serviços, mas dependemos totalmente da indústria para viver. Olhe ao redor: tudo aquilo que você consegue tocar saiu de fábricas, minas, usinas e instalações industriais. Sem a indústria, você não conseguiria acender as luzes nem tirar o carro da garagem. 

Aproximadamente um em cada cinco de nós trabalha na indústria. É tentador imaginar a indústria como um grande local cercado, com edifícios e chaminés, estacionamentos e portões, e muitas pessoas chegando para trabalhar todos os dias. Foi mais ou menos assim durante minhas três décadas de trabalho na indústria, desde o primeiro dia.

Mas, para muitas pessoas que trabalham na indústria, o local de trabalho não se parece nem remotamente com isso. Pode ser um canteiro de obras, a faixa de servidão de um oleoduto, uma plataforma offshore, uma plataforma elevatória estacionada ao lado de uma linha de energia ou de uma torre de água, ou o deslocamento para trabalhar em um equipamento na fábrica de um cliente.  Jacob Dean é o exemplo perfeito: empregado como operador de bombeamento na indústria de petróleo e gás, seu trabalho consistia em inspecionar e fazer a manutenção de equipamentos espalhados pela região petrolífera do oeste do Texas; uma caminhonete, uma caixa de ferramentas, uma prancheta e um celular definiam sua realidade.

Na economia de serviços, o maior perigo industrial muito provavelmente é dirigir. Mas, ao entrar em um trabalho industrial, encontram-se perigos complexos e graves por toda parte. Cada setor enfrenta seus próprios perigos de grande repercussão, e todos compartilham um conjunto de perigos comuns, como ferramentas manuais e escadas. 

Compreender esses perigos e procurá-los é um elemento fundamental da prática da segurança industrial. Porém, por mais importantes que sejam essas funções, se as medidas certas não forem tomadas para garantir que os perigos não causem danos, o conhecimento e o reconhecimento não valem nada. Este não é um exercício acadêmico.

No trabalho de Jacob havia um perigo extremamente letal: o sulfeto de hidrogênio, um composto químico frequentemente encontrado em depósitos de petróleo e gás que pode ser fatal — e já foi. Em níveis baixos, é possível sentir o cheiro de H2S a quilômetros de distância. Em concentrações elevadas, ele neutraliza o olfato — e pode matar em instantes. No oeste do Texas, onde esse perigo é comum, um detector de H2S é parte tão essencial do vestuário quanto as botas.

Há alguns anos, perto do fim de seu turno, Jacob recebeu um alarme proveniente de uma casa de bombas.  Ele dirigiu até o edifício, estacionou a caminhonete do lado de fora e entrou para verificar o problema. Seu detector de H2S ficou no banco da frente. 

Lá dentro, começou a consertar o problema, mas não reconheceu nem enfrentou o problema mais grave: o H2S na tubulação conectada à bomba. Ele morreu no local.

Não havia ninguém por perto.

A investigação 

Como seria de esperar em uma fatalidade no local de trabalho como essa, houve uma investigação. Na verdade, mais de uma, pois o Conselho de Segurança Química dos Estados Unidos decidiu participar, embora não tivesse jurisdição primária. 

A vantagem do envolvimento de uma agência independente como o CSB é que todos nós podemos descobrir o que deu errado, mesmo quando a verdade é desagradável.  Esse é o propósito, mas é preciso esperar pela publicação do relatório. Para este caso, o CSB produziu uma reconstituição em vídeo. Talvez você esteja pensando: “Não trabalho em uma região petrolífera e não lidamos com H2S. Não faz sentido perder meu tempo vendo isso.” Isso seria um erro.

Resumindo, na opinião do CSB, essa tragédia foi resultado de causas que soarão angustiantemente familiares para todos os líderes industriais do planeta: projeto inadequado das instalações, manutenção imprópria dos equipamentos, procedimentos de segurança insuficientes, falta de treinamento dos funcionários, falha em fazer cumprir as regras e falta de uso de EPI. Se você alguma vez quis uma prova de que coisas assim são importantes para a segurança, este caso a fornece.

O CSB atribuiu toda a culpa à “Empresa”. Nisso, errou completamente. 

Cada uma dessas causas reflete uma decisão, e uma decisão é uma escolha. Empresas não fazem escolhas; as pessoas que trabalham para elas é que fazem. Volte e leia a lista: cada causa refletiu uma escolha feita por alguém. Quanto a quem foi, é espantosamente óbvio: as impressões digitais da gestão estão por todas as causas dessa tragédia. Eles terão de conviver com isso.

Infelizmente, a família Dean também.

A pior parte

Por pior que tudo isso seja, você ainda não ouviu a pior parte dessa história.

Isso aconteceu no fim do dia, e Jacob trabalhava sozinho. Quando ele não ligou nem chegou para o jantar, sua esposa, Natalee, fez o que qualquer bom cônjuge faria nessa situação: começou a se preocupar. Depois, fez algo que nem todo cônjuge conseguiria fazer em uma situação como essa: colocou os dois filhos do casal, de 9 e 6 anos, no banco traseiro do carro da família e saiu à procura do marido.

Eles moravam em uma cidade pequena, e Jacob trabalhava para uma empresa pequena.  Ela sabia onde procurar, e não demorou para Natalee chegar à casa de bombas e estacionar bem ao lado da caminhonete de Jacob. Então, fez exatamente o que seria de esperar: saiu do carro e entrou no edifício à procura do marido.

As crianças ficaram no carro.

Você sabe como a história terminou. Quando a equipe local de Resposta a Emergências chegou ao local, não se aproximou do edifício sem antes vestir equipamentos completos de proteção respiratória. Eles retiraram dois corpos. As crianças no carro não sofreram danos graves.

………

Toda tragédia no local de trabalho provoca efeitos que se propagam pela vida de familiares, amigos, colegas de trabalho e, sim, líderes. Essa é a Justificativa para a Segurança: o motivo pelo qual a segurança sempre vem em primeiro lugar, independentemente do que alguém possa dizer ou fazer. A Justificativa nasce em casa. 

Leve a Justificativa a sério. Sem dúvida, os antigos líderes de Jacob levam — agora.

Finais — e começos

Se você é um leitor assíduo ou ex-aluno, sabe tudo sobre o que chamamos de Momentos de Grande Influência©: situações que fazem parte do cotidiano nos negócios, mas nas quais os seguidores ficam atentos, prestam atenção e estão prontos para ser influenciados. Seja por intuição ou por meio de análise e raciocínio, há gerações os melhores líderes compreendem esses fenômenos e aproveitam plenamente seus Momentos. 

Considere isso um presente que os melhores líderes deram a todos nós. Você não precisa ser um gênio da liderança para aproveitar plenamente esse presente, mas precisa fazer algo para tirar o máximo proveito dos Momentos que lhe são proporcionados. 

O fim do ano oferece uma parcela mais do que generosa de Momentos. É a ocasião de celebrar as festas e refletir sobre o ano que está chegando ao fim. Dois grandes Momentos aí. 

Este ano pode ter sido bom, mas talvez não tenha sido. Se todos sob sua responsabilidade voltaram para casa vivos e bem ao fim de cada dia de trabalho deste ano, independentemente de como todo o resto tenha se desenrolado, foi um bom ano.

Por fim, com o Ano-Novo vêm a esperança, um novo começo e a oportunidade de fazer melhor.

Carpe Diem! Aproveite o Momento!

Paul Balmert
Dezembro de 2021