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No que ele estava pensando?

31 de março de 2025 / Balmert Consulting

Neste mês, Paul examina uma lesão fora do trabalho sofrida pelo golfista profissional número um do ranking, Scottie Scheffler, que se feriu gravemente ao usar uma ferramenta improvisada para preparar o jantar. Paul e seu colega, Dr. Pete Robison, analisam “No que ele estava pensando?”, estruturando a conversa em torno dos ensinamentos de Rápido e Devagar, do ganhador do Prêmio Nobel Daniel Kahneman.

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“O golfe competitivo é um jogo disputado no espaço de cinco polegadas e meia entre as orelhas”      ~Bobby Jones Ouça o Podcast

Seria preciso ser um verdadeiro fanático por golfe para ter acompanhado esta história: durante as festas de fim de ano, o jogador mais bem classificado do golfe profissional masculino sofreu uma lesão na mão que o afastou das competições nas primeiras semanas da temporada.

Talvez você reconheça o nome dele: Scottie Sheffler.

Houve uma época em que esses casos eram conhecidos como “lesões fora do trabalho”. Algumas operações passaram a registrar e acompanhar lesões não relacionadas ao trabalho, seja porque acreditavam em uma abordagem holística da segurança – se você se machucou, está machucado, não importa onde estava naquele momento – seja porque lesões custam muito dinheiro, não importa a quem o custo seja atribuído.

No mínimo, é mais um exemplo de que a motivação não importa tanto assim: o que conta é fazer.

Quando Scottie compareceu à coletiva de imprensa antes de dar a tacada inicial em seu primeiro torneio, contou tudo; esse é o tipo de pessoa que ele é. Não seria ótimo se todos fizessem o mesmo quando se machucassem? O mundo seria um lugar mais seguro. Em vez disso, os líderes muitas vezes precisam bancar os detetives para compreender corretamente o que deu errado.

Mais um difícil desafio de segurança.

No caso de Scottie, parece que, na véspera de Natal, alguém decidiu que ravióli precisava estar no cardápio. Um pequeno obstáculo impedia que isso acontecesse: a família estava hospedada em uma casa alugada e não havia nada nas gavetas da cozinha que servisse para cortar a massa.

Voilà: uma taça de vinho, segurada de cabeça para baixo, resolveu o problema.

Você já sabe como essa história terminou: a solução funcionou até deixar de funcionar. De repente, havia vidro e sangue por toda a bancada.

Como Scottie explicou mais tarde, ele teve sorte de ter sofrido apenas aquelas lesões.

Ferramentas e Métodos Improvisados

Quando ensinamos a reconhecer perigos, costumamos perguntar aos participantes das turmas quais sinais de alerta de perigo eles procuram. Em uma aula, muitos anos atrás, uma pessoa muito sábia explicou que sempre tomava cuidado quando as ferramentas e os métodos eram improvisados. Foi uma conversa como tantas outras das quais tive a sorte de participar; quando pessoas sábias compartilham o que aprenderam, você presta muita atenção e age com cautela.

Desde então, temos transmitido a sabedoria dele.

É tudo tão óbvio, não é? Soluções improvisadas não são comprovadas, testadas e confiáveis. Na prática, as chances de falha são maiores e, se algo der errado, os possíveis danos raramente são mitigados. Isso é algo que se faz depois do ocorrido, pensando na próxima vez.

Falando em prestar muita atenção e agir com cautela, observe que mitigar significa “diminuir o efeito de”. Na gestão do desempenho em segurança, são as consequências que se mitigam, não o risco, ou seja, a probabilidade de ocorrer um evento indesejado. O risco é algo que se reduz.

Ou se aumenta.

A taça de vinho de Scottie é a ilustração perfeita de ambos. Cortar massa pressionando uma taça de vinho tem grande probabilidade de dar errado. Luvas poderiam ter ajudado a mitigar as consequências, desde que não fossem aquelas que ele leva na bolsa de golfe.

Na coletiva de imprensa, ele admitiu que teve sorte de a haste não ter penetrado a palma de sua mão.

No que ele estava pensando?

Diante de um problema, nós, seres humanos, somos geniais em encontrar soluções inovadoras. Exceto pela questão da lesão, a taça de vinho de Scottie cumpriu perfeitamente a tarefa de cortar massa sobre uma bancada de granito. É o possível lado negativo da solução que, com frequência, acaba sendo ignorado.

Isso acontece o tempo todo: pode acontecer em casa; pode acontecer no trabalho. Quantas vezes você já viu a causa de uma lesão ser descrita como “falha em reconhecer o perigo” ou “ferramenta errada para o trabalho”?

Neste caso, seria de esperar que, se alguém prestasse muita atenção quando suas mãos estivessem prestes a correr perigo, esse alguém seria um golfista profissional: assim como um pianista de concerto, ele ganha a vida com as mãos. Isso faz você se perguntar: “No que ele estava pensando?”. Aparentemente, naquele momento, ele não estava pensando em nada.

Se ao menos fosse tão simples.

O Pensamento Humano

Meu amigo de longa data e estimado colega, Dr. Pete Robison, tem uma visão diferente sobre o assunto. Sempre um cientista curioso, ultimamente Pete tem se dedicado a estudar o trabalho de Daniel Kahneman. Kahneman foi professor de psicologia, amplamente reconhecido por seu estudo sobre como os seres humanos tomam decisões; talvez você já tenha ouvido falar de seu livro, Rápido e Devagar. Foi um best-seller, e sua pesquisa lhe rendeu um Prêmio Nobel – de economia!

Na pesquisa de Kahneman, Pete vê uma explicação lógica para comportamentos como o de Scottie. “Nós, seres humanos, temos dois sistemas distintos de pensamento funcionando dentro de nós. Um opera de modo automático e reflexivo, refletindo nossa experiência e intuição. Essa é nossa ‘voz interior’, que funciona muito bem e é muito difícil de desligar. Na maior parte do tempo, estamos no sistema um.

O sistema dois é ponderado, mas exige mais esforço. É preciso desacelerar; requer concentração. O tempo é fundamental, e o sistema dois é ‘preguiçoso’.

Daí o “pensar rápido” em contraposição ao “pensar devagar” de Kahneman.

Então, agora você sabe o que aconteceu com Scottie Sheffler. Ele tem um jantar planejado e a família está esperando. Ele sabe como fazer isso. Nos termos de Kahneman, ele não disse: “Pausa. Preciso desacelerar, acionar meu sistema dois e perguntar: ‘Que tipo de risco estou correndo?’”

A conclusão de Pete: “É exatamente isso que acontece quando você está totalmente concentrado no sistema um. Nas palavras de Kahneman, o foco intenso na tarefa em questão ‘pode tornar as pessoas efetivamente cegas.’”

Resumindo: não seja tão severo ao julgar Scottie. Ele pode ser um golfista incomparável, mas, quando se trata de tomar decisões em tempo real, ele está na média, assim como todos nós.

Pete acrescenta que, na visão de Kahneman, embora não sejamos muito bons em fazer autocrítica, somos muito bons em julgar os outros. Isso começa a sugerir uma solução: o olhar atento de outra pessoa na cozinha talvez seja o melhor meio de prevenção.

Imagine se tivesse ocorrido uma conversa mais ou menos assim: “Estou observando você enquanto prepara a massa. Vejo que está prestes a virar essa taça de cabeça para baixo para cortar os raviólis. Você sabe que pressionar uma taça de vinho contra a bancada de granito a deixa muito suscetível a se estilhaçar. Se isso acontecesse, você passaria a véspera de Natal no pronto-socorro, e não haveria como saber quando poderia voltar a jogar golfe.”

Talvez você reconheça essa intervenção como SORRY.

Implicações para os Líderes

Como você sabe, fazer com que seus seguidores realmente desacelerem e pensem de maneira diferente – isto é, acionem o sistema dois de Kahneman – é pedir muito. É claro que você também é seguidor de algum outro líder, portanto tem a capacidade de desacelerar seu pensamento, pelo menos durante o tempo que está investindo na leitura desta edição do NEWS.

Esse é um pequeno exemplo da aplicação do pensamento do sistema dois à sua prática de liderança. A menos que você seja um daqueles “líderes natos” que não precisam refletir conscientemente sobre sua prática, é um tempo bem empregado. Vale ressaltar que muitos desses líderes aparentemente natos refletiram sobre seu processo muito mais do que a maioria de seus pares.

Pete apresenta mais duas observações.

“Kahneman ganhou o Prêmio Nobel ao relacionar sua pesquisa à maneira como as pessoas tomam decisões econômicas. Como, na maior parte do tempo, as pessoas operam no Sistema Um, elas precisam de um estímulo para fazer melhores avaliações e tomar melhores decisões.”

Procedimentos como Permissão para Trabalho Seguro e Gestão de Mudanças fazem mais do que simplesmente estimular as pessoas. O treinamento de liderança também.

Apresentar aos líderes cenários da vida real, como fazemos em nossas aulas, leva os participantes a pensar usando o Sistema Dois. Pegamos situações que acontecem no momento e fazemos com que os líderes desacelerem e reflitam sobre elas. Isso os prepara melhor para lidar com essas situações usando o pensamento do sistema um.

Na visão de Pete, “O sistema dois é o eu que se lembra, a parte de nós que executa de maneira cuidadosa e consciente uma prática recomendada de liderança. Procurar exemplos positivos de pessoas trabalhando com segurança e oferecer feedback positivo a elas é um exemplo perfeito.”

O mesmo valeria para perceber que uma ferramenta ou um método de trabalho improvisado tem maior probabilidade de falhar – e falhar desastrosamente – e, por isso, interromper o trabalho.

Quanto à investigação de um desses casos quando a solução falha e causa danos, o conselho de Pete aos investigadores de causa raiz é que um comportamento como o de Scottie pode não ser desejável, mas é normal. “Grande parte do problema está relacionada ao tempo. Vejo o caso de Scottie como um exemplo clássico de ‘produção versus segurança.’  As pessoas estão esperando o jantar, e fazer dessa maneira levará apenas um minuto.”

A melhor abordagem: “reserve tempo para fazer da maneira certa”.

A Palavra Final

É mais provável que esse conselho seja colocado em prática com a ajuda de outras pessoas. É mais um motivo pelo qual a segurança é sempre melhor quando praticada em equipe.

Paul Balmert
Março de 2025

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