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As Coisas Deram Errado

30 de novembro de 2021 / Balmert Consulting

Neste mês, Paul examina o que aconteceu no set de filmagem do Bonanza Creek Ranch, em Santa Fé, Novo México. Ele identifica várias lições muito importantes para aplicarmos onde trabalhamos quando as coisas seguem um rumo diferente do planejado ou esperado.

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“Apenas os fatos”


~Sargento-detetive Joe Friday


A manchete da matéria diz: “Acidente de Trabalho Deixa Uma Pessoa Morta e Outra Gravemente Ferida”. Uma história trágica, mas uma manchete que está longe de ser incomum: há mais de uma dúzia de histórias assim todos os dias.
 
E isso apenas nos Estados Unidos. 
 
Mas, para esclarecer os fatos, não há muitas histórias como esta. A começar por quem: geralmente, as pessoas que se ferem trabalham na linha de frente da empresa, mas essas duas ocupavam cargos de gestão. A pessoa que sofreu o ferimento fatal fornecia orientação técnica para o trabalho. A que ficou gravemente ferida estava literalmente olhando por cima do ombro dela: ele era o responsável pela segurança.
 
Entende o que quero dizer com diferente? 
 
Antes de descartar este caso como um evento aleatório, produto de uma combinação infeliz e improvável de circunstâncias que jamais voltaria a se repetir, tantas coisas já haviam dado errado que uma manchete melhor talvez fosse: “Neste Projeto, Ninguém Estava Seguro”.
 
Quem está encarregado de descobrir o restante da história — ou seja, quem, o quê, como e por quê — são o xerife e o FBI: foi um tiroteio. Quanto ao local, aconteceu em um set de filmagem. Uma bala disparada por uma arma cenográfica atingiu e matou a diretora de fotografia e feriu gravemente o assistente de direção. Certamente você ouviu essa história; ela parece um roteiro de cinema. Mas aconteceu na vida real. Só não na vida como é retratada nos filmes. 
 
Durante o ensaio, o astro disparou a pistola diretamente para a câmera. Disseram a ele que a arma não estava carregada. Foi um acidente? Poderia ter sido um crime? Como em algum mistério policial, as autoridades descobrirão. Por razões óbvias, o trabalho delas não será fácil.
 
Esse é o problema deles. Para nós, é uma oportunidade de relembrar várias lições importantes que devemos aplicar quando as coisas dão errado.

A Vida Imita a Arte?
 
O que acontece nos filmes pode ter pouca semelhança com a vida real; não se pode dizer o mesmo sobre a produção de filmes. Jornadas longas, condições de trabalho difíceis, equipamentos improvisados, pressão de orçamento e cronograma, estresse e baixa motivação são tão comuns no set quanto em um trabalho real, como aquele que você gerencia. Está longe de ser uma vida de conto de fadas.
 
Rust não foi exceção. Depois do tiroteio, o noticiário ficou repleto de relatos sobre problemas. Horas antes do incidente, a equipe de câmera abandonou o set em protesto contra as condições de trabalho. Preocupações haviam sido levantadas sobre a segurança das armas. Os procedimentos de segurança não estavam sendo seguidos. As pessoas estavam negligentes em relação às armas. Profissionais em funções essenciais eram inexperientes, tinham treinamento insuficiente e estavam sobrecarregados pelo volume de trabalho. Enquanto isso, era só correr, correr, correr.
 
Parece um caso clássico de uma péssima cultura de segurança, não é? Provavelmente também houve muitos quase acidentes.
 
Exatamente. O filme era um faroeste e, surpreendentemente, parece que já haviam ocorrido três disparos acidentais de armas. Mas não houve investigações, paralisações de segurança nem sequer uma reunião de segurança sobre o assunto. Nada foi feito para resolver o problema, pelo menos na opinião de quem realizava o trabalho.
 
Mas não na visão da gerência. Interrompa-me se já ouviu esta antes: “A segurança do nosso elenco e da nossa equipe é a principal prioridade da Rust Productions. …não fomos informados de nenhuma reclamação oficial referente à segurança de armas ou objetos cenográficos no set…” 
 
Talvez esses quase acidentes não tenham sido relatados. 
 
Bem, tudo isso vem de reportagens da imprensa, e você conhece o histórico dela quanto aos fatos. Então, vamos nos ater ao único fato que conhecemos com certeza: houve uma tragédia. Se você trabalhasse no set, fosse proprietário da produtora ou fosse parente ou amigo das vítimas, insistiria em conhecer os fatos. Todos os fatos.
 
Não é diferente no seu trabalho.
 
Sobre os “Acidentes”
 
Algumas pessoas que lerem esta edição das NOTÍCIAS não conseguirão superar a manchete inicial. “Um Acidente de Trabalho? Acidentes não existem!” Talvez você conheça esse tipo de pessoa. Eu conheço. Valorizo a paixão delas por descobrir a verdade sobre como os ferimentos acontecem; o que elas não compreendem é a definição de acidente: um evento que ocorre sem intenção. 
 
Você conhece alguém que vai trabalhar querendo voltar para casa ferido?  Não. Quer desperdiçar seu tempo debatendo como chamar acontecimentos lamentáveis como este? Não. Quer saber como e por que aconteceu? Claro.
 
O tiroteio de Rust pode ter sido resultado de uma série de ações não intencionais. Nesse caso, as autoridades concluirão que foi um acidente. Pode ter sido resultado de uma ação deliberada para causar dano. Nesse caso, as autoridades concluirão que foi um crime. 
 
Em qualquer dos casos, a conclusão será baseada nos fatos. É simples assim.
 
Sobre os “Quase Acidentes”
 
Quanto a esses quase acidentes, seja qual for o nome popular dado a eles, considere-os uma mensagem: algo deu errado, e alguém precisa descobrir como e por quê.
 
Todo líder sabe que deveria fazer isso, mas nem todo líder faz o que deveria.  Primeiro, porque esses quase acidentes muitas vezes não são presenciados e, portanto, não são relatados. “Aquilo? Nunca aconteceu.” Nenhuma história.  Nos casos em que o líder sabe, é fácil ignorar um quase acidente simplesmente porque ninguém se feriu. “Está todo mundo bem? Ótimo! Não precisamos investigar isso.” Fim da história.
 
A verdade é que, em ambos os casos, havia uma história. Elas tiveram um final feliz, mas poderia ter sido diferente. Quanto à diferença que determina um acerto ou um erro, ela está no efeito, não na causa. Um exemplo: se o astro de Rust tivesse disparado a pistola e errado os alvos humanos, uma bala teria caído inofensivamente em algum lugar do deserto de Sonora. 
 
Fim da história. 
 
A questão é que algo assim já havia acontecido no set — três vezes! Aparentemente, ninguém levou esses casos a sério o bastante para investigar os fatos. Se tivessem feito isso, esta história provavelmente teria um final feliz.
 
Essa é uma parte desta história que deveria chamar sua atenção. 
 
Chamando os Advogados
 
Os fatos explicam como algo dá errado. A menos que tenha sido um ato de Deus, haverá impressões digitais humanas nesses fatos. Todos sabem disso, e todos sabem o que pode acontecer àqueles cujas impressões digitais forem encontradas neles. Ninguém quer que sejam as suas.
 
Sabendo que é assim e querendo manter relações harmoniosas no trabalho, é comum apontar objetos inanimados e partes não identificadas como responsáveis. Sem dúvida, você conhece os suspeitos de sempre: projeto deficiente, aplicação negligente das regras, prática comum, complacência, falha no sistema de gestão, cultura de segurança deficiente. Nos voos espaciais tripulados, era a “normalização do desvio”.  Não significa que essas causas não possam ser verdadeiras; o problema é que, com elas, ninguém é responsabilizado nominalmente. Que conveniente, não é?
 
Por outro lado, pode haver uma busca por um bode expiatório. Nos tempos bíblicos, era o pobre bode que recebia os pecados de todos e era enviado para o deserto, para nunca mais ser visto. Nas investigações modernas, é quando toda a culpa é colocada sobre uma única pessoa. Que conveniente.
 
A verdade é que sempre existe um conjunto de fatos que explica o que deu errado. Mas chegar à compreensão da verdade exige uma combinação de sabedoria e coragem, duas coisas escassas hoje em dia. É muito mais fácil seguir o rebanho. 
 
Quanto a chamar os advogados, considerando os tempos em que vivemos e a gravidade do tiroteio de Rust, quem poderia culpar alguém por contratar um advogado para representar seus interesses? Mas a presença de advogados torna ainda mais difícil o trabalho das autoridades de descobrir a verdade.
 
Provavelmente não teria sido assim em uma investigação sobre um daqueles disparos acidentais.  Mais um excelente motivo para investigar esses quase acidentes.
 
Seguindo as Regras
 
Por fim, independentemente do que os fatos comprovarem, essa tragédia não teria acontecido se uma regra de ouro da segurança com armas tivesse sido seguida: trate toda arma como se estivesse carregada.
 
Meu vizinho de longa data e ávido caçador, Bill, participou como jurado de um julgamento no qual o promotor agitava uma arma usada para cometer um crime grave. Bill era gerente na operação de voos espaciais tripulados da NASA e sabia como o processo judicial funciona: no tribunal, os jurados devem ser vistos, mas não ouvidos. 
 
Isso não impediu Bill de interromper. Voltando-se para o juiz, interveio em voz alta: “Excelência, por favor, mande esse advogado parar de apontar essa pistola para as pessoas nesta sala de audiência.” 
 
Bill não foi acusado de desacato ao tribunal nem mandado para a cadeia.
 
No mínimo, o tiroteio de Rust serve como um duro lembrete do valor de seguir as regras de ouro da segurança — e garantir que os outros também as sigam.
 
Paul Balmert
Novembro de 2021