O ditado “Floresça onde você foi plantado” combina perfeitamente comigo. No meu segundo ano de faculdade, enquanto estudava Engenharia Química, consegui um estágio em uma empresa de papéis especiais e, quando me formei, foi lá que comecei a trabalhar. Passei os quarenta anos seguintes trabalhando na indústria de papel, sempre no Brasil.
Minhas raízes estavam em um único setor, mas não permaneci em uma única área da empresa, como operações. No início da minha carreira, um alto executivo no Brasil me escolheu para receber treinamento em diversos departamentos, visando ao meu desenvolvimento profissional. Assim, a cada dois anos, aproximadamente, eu mudava completamente de função. Além de produção e controle de processos, trabalhei com vendas e marketing, segurança e saúde, recursos humanos, qualidade, Lean Six Sigma e treinamento. Cheguei até a passar quatro anos no departamento jurídico como gerente jurídico ambiental!
Talvez você se pergunte por que alguém como eu seria escolhido como um bom candidato para trabalhar nesses departamentos. Alguns fazem certo sentido, como qualidade, Six Sigma e treinamento. Mas o departamento jurídico? O presidente me disse: “Newton, você vai para essas áreas. Estou desafiando você a aprender em uma nova situação e a compreender o ambiente delas.”
Olhando para essa experiência em retrospecto, acho que esse líder me via como alguém com um enorme impulso para compreender. Desde a infância, quando perdi meu pai ainda muito jovem, sempre fui uma pessoa que buscava respostas para perguntas que começavam com “por quê”. Por que coisas assim acontecem? Por que as coisas são como são? Acredito que existam razões e que vale a pena dedicar tempo para buscá-las.
À medida que fui ficando mais velho, meu interesse em compreender as coisas também cresceu. Com uma mentalidade de engenheiro, eu queria entender muito mais sobre o “como e por quê” da ciência. Curioso por natureza, até hoje adoro descobrir coisas novas na ciência, biologia, medicina — e no ensino.
Acho que você poderia me chamar de um buscador.
Posso dizer que fazer perguntas quando eu era universitário e estagiário nem sempre era bem-visto. Houve ocasiões em que a resposta foi: “Por que você me pergunta por quê?” Havia uma geração que pensava: “Você não precisa saber o motivo; só precisa fazer.”
Ensinando Liderança
Uma das minhas últimas funções na indústria de papel foi ensinar liderança em segurança aos líderes das operações da minha empresa na América do Sul. Gostei tanto disso que, quando me aposentei, quis continuar ensinando.
Adoro ensinar, e ensinar líderes a liderar e a liderar a segurança me parece um dos assuntos mais importantes que existem. Posso compartilhar algumas das muitas coisas que aprendi sobre liderança, e o ensino me dá a oportunidade de aprender ainda mais com os líderes que ensino. Você conhece o ditado: “Quem ensina é quem mais aprende.” Isso é chamado de “método de aprendizagem ativa” e é considerado a melhor forma de aprender. Para mim, é outra maneira de buscar compreensão.
Na minha busca sobre o ensino, há aquilo que preciso aprender para ensinar bem, como criar engajamento quando fica evidente, pela linguagem corporal de um aluno, que ele não está envolvido da mesma forma que seus colegas. Isso me levou a descobrir coisas depois da aula ou durante uma pausa para o café — simplesmente perguntando.
Muito recentemente, conversei com um jovem líder cuja linguagem corporal demonstrava que ele não estava tão interessado em aprender sobre liderança em segurança.
“Você gosta de ler livros?”, perguntei.
A resposta: “Não. Não gosto de ler livros.”
Não fiquei surpreso. “Certo. Então, como você adquire conhecimento sobre um assunto importante para o qual precisa de informações?”
“Eu vou ao Google. O Google responde a tudo o que preciso saber.”
“Você pesquisa outras fontes e referências encontradas no Google?”
“Não. Uma resposta é suficiente.”
Foi apenas uma conversa, mas não foi um caso isolado. Ao relembrar aulas recentes e conversas como essa, agora está claro que esse líder tem muita companhia. Recentemente, tive muitas discussões semelhantes e, nos últimos anos, ouvi e observei bastante essa abordagem em relação ao conhecimento, sobretudo entre líderes mais jovens. É uma observação minha, não o resultado de uma pesquisa científica. É apenas minha percepção sobre um tipo de comportamento geracional.
Mas essas pessoas são líderes — seja agora ou prestes a assumir uma posição de liderança — e esses assuntos são importantes.
O que me ocorreu foi que algumas pessoas querem se aprofundar em um assunto, enquanto outras simplesmente não têm interesse em nada parecido. Para elas, o conhecimento superficial é suficiente. É a diferença entre se concentrar em “pés quadrados” em vez de “pés cúbicos”.
Fico pensando em como pensar em “pés quadrados” afetaria a eficácia delas como líderes, sobretudo em tempos turbulentos.
O valor da compreensão
Você consegue imaginar um médico tomando uma decisão sobre uma cirurgia sem conhecimento profundo da anatomia humana? Problemas complexos nas operações exigem conhecimento aprofundado para compreender a causa raiz e resolver o problema com sucesso. Quando esse tipo de compreensão se perde, a produção pode ser colocada em risco e talvez seja necessário buscar ajuda externa.
Os “pés cúbicos” podem representar a diferença entre a vida e a morte, uma lição que aprendi certa vez com um líder que, naquela época, possuía muito mais pés cúbicos de conhecimento do que eu.
Como gerente regional de EHS, eu visitava uma de nossas unidades quando surgiu uma situação crítica na estação de tratamento de água, que processava a água do rio que abastecia a fábrica. Enfrentávamos chuvas intensas, que fizeram o rio atingir o nível mais alto já registrado. A água transbordava para o canal onde ficavam os motores das bombas de captação, submergindo os motores que acionavam as bombas. As operações da unidade haviam sido interrompidas por falta de água para o processo.
Os motores e as bombas ficavam quatro andares abaixo do nível do rio e da entrada da casa de bombas. Para chegar até eles, havia escadas de alvenaria com corrimãos metálicos.
Ao chegar à estação de tratamento de água, fui diretamente até nosso pessoal que estava lá, incluindo o gerente da área de utilidades. Naquele momento, apesar de toda a minha experiência, deixei de prestar atenção a um fato crítico que colocaria minha vida em perigo.
Instintivamente, dirigi-me às escadas para avaliar os danos. No entanto, quando fui colocar a mão no corrimão, tive uma enorme surpresa: o gerente de utilidades gritou comigo!
Ele literalmente me agarrou pelo braço e me puxou para trás, impedindo que eu tocasse no corrimão. Foi então que ele me disse…” Newton! Estamos esperando a equipe elétrica verificar se este corrimão está energizado — porque os motores estão submersos na água. Não toque nos corrimãos, pois eles podem estar eletrificados. Vamos esperar até que a área seja considerada segura e então entraremos.”
Fiquei impressionado com a intervenção desse gerente, pois ele não apenas sabia o que era eletricidade, mas também compreendia o efeito da condução elétrica nos metais. Sou muito grato a ele por ter feito isso por mim.
E por ter me ensinado uma lição importante sobre compreensão.
Em busca da compreensão
Adoro os líderes e tenho o mais profundo respeito por aqueles que me desafiaram e me incentivaram a aprender. Sempre os considerei pessoas do tipo “pés cúbicos”. Trabalhando para um líder superficial, você não receberá do seu chefe essa motivação para aprender. Mas isso não significa que você não precise de compreensão.
“A única constante é a mudança”, disse Heráclito de Éfeso. Pense em todas as mudanças nas quais você está envolvido: você não precisa compreender o que está mudando e como a mudança funciona para conseguir fazê-la acontecer da maneira prevista?
Como líder, o primeiro lugar onde buscar pés cúbicos de compreensão é dentro de si mesmo. Como disse Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo.” Os líderes precisam compreender o que sabem, o que não sabem e quem são.
Acho que a vida sempre nos coloca diante de pessoas e situações que nos impulsionam a buscar profundidade nas coisas que precisam ser feitas. Como líder, posso escolher me aprofundar ou não em um tema ou problema a ser resolvido. Também posso delegar a outras pessoas a tarefa de se aprofundar neles. Ou posso esperar que os acontecimentos me obriguem a adquirir profundidade. Mas, então, pode ser tarde demais.
No entanto, aprendi que, sempre que surgem desafios, eles me forçam a compreendê-los, trazendo à minha mente as seguintes perguntas: “O que tenho a aprender com isso? O que isso quer de mim?”
Compreendo, cada vez mais, a importância de fazer Perguntas Realmente Boas, perguntas que levam as pessoas a pensar, refletir e compreender a essência das coisas.
Isso é ter pés cúbicos!
Newton Scavone
Novembro de 2022
