Minha carreira na indústria de mineração começou como a de muitos dos meus colegas. Depois de me formar, fui contratado por uma mina de carvão a céu aberto, onde, como novo engenheiro de minas, recebi a responsabilidade por vários projetos pequenos. Normalmente, o trabalho era realizado por uma empresa contratada e, devido à minha falta de experiência, não eram serviços de grande porte.
Assim, éramos apenas eu e alguns prestadores de serviço; passei muito tempo com eles nas frentes de trabalho e conheci bem muitos deles. Não eram as pessoas mais cuidadosas com a segurança que já conheci, e houve ocasiões em que alguém se machucou. Eles estavam executando um trabalho sob minha responsabilidade, e certamente senti certa responsabilidade pelo que aconteceu com eles. Por outro lado, eles tinham supervisores aos quais se reportavam, e eu era, na verdade, apenas o cliente deles.
Depois de alguns anos, fui promovido à gestão e me tornei Supervisor de Produção na mina. Na indústria de mineração, é comum que um engenheiro como eu assuma uma função de supervisor de linha de frente. A maioria dos altos executivos que eu conhecia havia sido supervisor de linha de frente em algum momento da carreira. Sinceramente, não pensei muito nisso até começar a ensinar liderança em segurança como consultor. Agora que passei algum tempo com líderes de outros setores, descobri que a maioria dos executivos não tem essa mesma experiência.
Há lições importantes sobre liderança que você aprende quando supervisiona diretamente uma equipe. Uma das maiores envolve assumir a segurança como sua responsabilidade. Ser responsável pela segurança e assumir a responsabilidade pela segurança estão longe de ser a mesma coisa.
Meu primeiro acidente realmente grave
Como Supervisor de Produção, eu tinha uma equipe grande: em um turno típico, 70 pessoas se reportavam a mim, executando tarefas que iam da operação de equipamentos pesados ao carregamento de furos para detonação. Naquela época, tínhamos muito orgulho de nosso desempenho em segurança, mas estávamos longe de não ter acidentes. As pessoas se machucavam, mas houve um caso que realmente chamou minha atenção. Foi um acidente com um membro da equipe que eu conhecia muito bem: ele esmagou a mão e quase perdeu um dedo.
Quanto à forma como aconteceu, como você pode imaginar, há muitos perigos de grande porte em uma mina: caminhões de transporte do tamanho de uma casa, por exemplo, e draglines tão grandes quanto um estádio de futebol. Mas o perigo que realmente chamou minha atenção não se parecia em nada com esses. Era apenas o engate de reboque de uma caminhonete: prender a mão ao conectar um reboque ao engate acabou causando ferimentos graves a um membro da minha equipe.
Por algum motivo, aquele caso realmente mexeu comigo.
Olhando para trás, agora parece claro que cada tarefa tem seus próprios riscos e as respectivas consequências. Muitas vezes, algumas das tarefas maiores são bem administradas e recebem bastante atenção, enquanto as tarefas menores podem ficar sujeitas à complacência ou à falta de foco. Mas ambas podem ter consequências capazes de mudar uma vida.
Outra coisa que ficou clara para mim foi que, como líder, eu precisava garantir que meus liderados permanecessem concentrados em todo o trabalho e mantivessem um alto nível de consciência sobre segurança.
Conexão, cuidado, compromisso
Quando estou diante de uma sala cheia de líderes, ensinando práticas de liderança em segurança, percebo que uso muitas palavras que começam com a letra “c”: conexão, comunicação, cuidado, compromisso, consistência, conformidade. Às vezes, até coragem. Ser bom em liderança em segurança exige fazer todas essas coisas — e fazê-las bem.
O simples ato de se importar é muito importante. Os liderados sabem quando você realmente se importa e com o que você realmente se importa. Mas posso afirmar que eles não acreditarão que você se importa apenas porque diz algumas coisas certas; trata-se mais de convencê-los de que você realmente se importa, e isso exige tempo e esforço.
Mais tarde em minha carreira, quando eu gerenciava uma mina, outro de meus liderados sofreu um ferimento grave na mão. Dessa vez, o culpado foi uma aliança: a aliança de casamento dele. Tínhamos uma regra segundo a qual era preciso retirar a aliança antes de começar a trabalhar e, como você pode imaginar, esse foi um caso em que a regra não estava sendo cumprida. A aliança ficou presa em uma borda enquanto ele usava uma plataforma elevatória, e ele quase perdeu o dedo, pois cortar e retirar a aliança no pronto-socorro acabou sendo uma provação e tanto.
Depois de receber alta do pronto-socorro à 1h da manhã, ele apareceu logo cedo. Eu o encontrei, dentre todos os lugares possíveis, no estacionamento. Antes que você tire qualquer conclusão precipitada sobre esse episódio, deixe-me explicar o que aconteceu.
Como gerente da mina, eu poderia ter uma vaga reservada na parte da frente do estacionamento, mas costumava procurar uma vaga como todo mundo. Naquela manhã, por acaso estacionei bem ao lado dele — exatamente no mesmo momento. Saímos de nossas caminhonetes — nós nos conhecíamos — e acenamos com a cabeça; então ele se juntou a alguns colegas, mantendo-os cuidadosamente entre nós.
Não funcionou exatamente como ele esperava; no portão, acabamos lado a lado. Ele olhou para mim e perguntou: “Bem, você está bravo comigo porque me machuquei?”
Não era o que eu esperava ouvir. “Não, não estou, mas sei quem está.”
Tenho certeza de que não era o que ele esperava ouvir. “Quem?”
“Sua esposa. Foi sua aliança de casamento que precisou ser cortada no hospital. Se não tivesse sido, você poderia ter perdido um dedo.”
Às vezes, demonstrar cuidado significa dizer a alguém algo que essa pessoa não quer ouvir. Mas, olhando para trás, se eu tivesse dito o tipo de coisa que os líderes costumam dizer em situações como essa — sabe, aquele discurso de “tenha cuidado para não ofender” —, teria sido muito mais parecido com simplesmente ser responsável e muito menos com assumir a responsabilidade pela segurança.
O caminho para assumir a responsabilidade
Olhando para minha carreira como líder, consigo ver o progresso constante que fiz até sentir que a segurança era minha responsabilidade. Não foi uma questão de receber um choque de realidade provocado por um incidente grave, mas algo que simplesmente compreendi por meio da experiência. Não aconteceu da noite para o dia.
Quando me tornei gerente e, por fim, passei a administrar uma mina inteira, ao observar os supervisores e gerentes que se reportavam a mim, ficava evidente em que ponto desse mesmo caminho cada um se encontrava. Havia aqueles que, eu percebia, assumiam a responsabilidade pela segurança da mesma forma que eu, e havia outros que agiam como se dissessem: “Sim, a segurança é importante. Mas a produção, os prazos e agradar ao chefe também são.”
Não acredito que seja possível para um líder alcançar um excelente desempenho em segurança sem realmente assumir a responsabilidade por ela. Mas também não acredito que seja possível um líder “obrigar” outros líderes a fazer isso. As pessoas precisam chegar a esse ponto por conta própria.
Mas isso não significa que um líder não deva tentar ajudar para que isso aconteça. Uma das melhores maneiras de fazer isso é liderar pelo exemplo.
Tive a sorte de trabalhar para alguns líderes de segurança realmente bons, sobre os quais eu não tinha nenhuma dúvida de que assumiam a responsabilidade pela segurança. Um deles era vice-presidente e, quando encontrava alguém trabalhando de forma insegura, estendia a mão e iniciava a conversa dizendo: “Quero agradecer por você arriscar sua vida por mim hoje.”
É claro que não era assim que a conversa terminava. Essa era apenas a maneira daquele líder demonstrar cuidado e compromisso para garantir que todos trabalhassem com segurança. Isso marcou muitos de seus liderados. Inclusive eu.
A palavra final
Acredito que você pode considerar a sensação de assumir a responsabilidade pela segurança como um estado de espírito. Cada um de nós é dono do que pensa e de como se sente a respeito das coisas, e a segurança não é exceção. Portanto, se você é líder, cabe a você decidir se assume a responsabilidade pelo desempenho em segurança de seus liderados. Sei que assumi essa responsabilidade por cada um dos meus.
O que posso afirmar é o seguinte: depois que você decidir assumir a responsabilidade pela segurança, estará um grande passo mais perto de alcançar um excelente desempenho em segurança.
Gary Rivenes
Outubro de 2022
