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Falha em aprender?

31 de outubro de 2018 / Balmert Consulting

Nas Notícias sobre Gestão do Desempenho em Segurança deste mês, Paul examina o problema da falha em aprender — e há uma lição que não podemos deixar de aprender. Ele se concentra no verdadeiro problema da percepção de risco, também conhecida como probabilidade.

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“As pessoas nunca aprendem”

~Comentário no Facebook

Redes sociais. Duas décadas atrás, o termo literalmente não existia. Agora, a vovó tem 1.250 amigos no Facebook. Você não consegue se lembrar do que comeu no jantar ontem à noite, mas pode ver o que um colega do ensino médio dos anos 60 comeu em seu restaurante favorito em Pismo Beach. E descobrir onde a tacada inicial de Tiger acabou de cair… na França.

Como somos sortudos: tanta informação chegando até nós. Às vezes interessante, mas raramente útil, muito menos importante.

Então, escondida em meio a uma enxurrada de publicações, entre fotos dos netos e charges editoriais, aparece esta foto, enviada por um amigo de um amigo.

Facebook Post

Quanto ao que deu errado, foi bastante simples: o Motorista A estava digitando uma mensagem. O Motorista B não estava usando o cinto de segurança.  O Motorista B não sobreviveu à colisão. Infelizmente, coisas assim acontecem muito hoje em dia e, quando acontecem, certamente vem o comentário: “as pessoas nunca aprendem”.

Como se o problema fosse “a falha em aprender.” Raramente é esse o caso: se fosse, coisas assim seriam raras.

A raiz do problema está em outro lugar e, nesse aspecto, muitas vezes há uma falha em aprender — por parte dos responsáveis.

Aprendendo sobre perigos

 

Perigos são as coisas que podem machucar as pessoas. Todo mundo sabe disso. Se algo pode machucar você, é um perigo. Se algo não pode machucar você, não é um perigo.

Se você gosta de complicar as coisas, lamento decepcioná-lo. É realmente simples assim.

Quanto às coisas que podem machucar você, a lista é muito longa, e é isso que complica a situação. Não precisa acreditar apenas na minha palavra: pare de ler por um instante, levante os olhos do computador e observe ao redor. Nesse espaço aparentemente seguro onde você trabalha, é possível encontrar muitas coisas perfeitamente capazes de machucar você.

Ou seja, perigos. Para saber quais são, o treinamento ajuda — caso você não saiba identificá-los. Mas você realmente precisa de treinamento para saber que, se inclinar para trás o suficiente nessa cadeira em que está sentado, poderá cair de costas? E que, se cair de costas, poderá se machucar? Não importa sua idade, você aprendeu isso há muito tempo.

A idade ajuda a saber quais são os perigos. Quanto mais tempo você vive, maior fica a lista de coisas que já viu machucarem pessoas, inclusive você mesmo.

Então, o que exatamente é que “as pessoas nunca aprendem”?

Para descobrir o que poderia ser, vamos realizar um experimento mental usando o trágico evento retratado acima. Sabemos que um dos motoristas não estava usando o cinto — assim como 10% dos motoristas dos EUA — e não sobreviveu. Vamos supor que o motorista que digitava a mensagem — não temos dados sobre o quanto essa prática é disseminada, mas, pela minha experiência, vejo isso o tempo todo — tenha sobrevivido à colisão.

Pergunta 1: Se o motorista sobrevivente fosse uma pessoa racional e madura — como você, por exemplo —, você acha que ele gostaria que o resultado tivesse sido o contrário?

Coloque-se no lugar do sobrevivente e… bem, você não gostaria de ser essa pessoa. Mas ela terá de ser. Pelo resto da vida. Que sorte a dela.

É claro que ela não precisava ter se tornado essa pessoa. Foi uma escolha, e escolhas trazem consequências.

Pergunta 2: Quanto a conduzir um veículo de passeio em uma via, você acha que os motoristas dos dois carros sabiam que um carro era um perigo — algo que poderia machucá-los?

É óbvio. Desde quando eram crianças, seus pais lhes diziam coisas como “Não brinque na rua” e “Olhe para os dois lados antes de atravessar”.  Além disso, há muitas fotos de carros destruídos circulando… nas redes sociais.

Pergunta 3: Quanto à escolha de digitar mensagens enquanto dirigia, você acha que o motorista sabia que, ao fazer isso, poderia acabar se machucando?

Vamos contar as maneiras pelas quais ele poderia ter aprendido isso: leis. Outdoors. Telejornais. Jornais. Autoescola. Redes sociais. Notícias MSP.

Tudo isso é muito óbvio. Sim, houve uma falha terrível aqui — mas não uma falha em aprender sobre o que pode machucar você.

Reformulando o problema

 

Apesar do que tantas pessoas dizem sobre o assunto — desde os especialistas que escrevem os livros até aqueles de nós que fazem comentários nas redes sociais —, este não é um problema de aprendizagem. Pelo menos não sobre perigos. Em termos acadêmicos, o conhecimento de um perigo é “necessário, mas não suficiente” para garantir a segurança. Portanto, não a garante.

Em termos práticos, aprender não é suficiente. Nem de longe. Não é o que alguém sabe que o mantém seguro; é o que essa pessoa faz com esse conhecimento.

Certamente, enquanto você lê esta edição das notícias, tudo isso parece muito óbvio. Para mim também parece, quando leio sobre todos os tipos de incidentes e eventos, grandes e pequenos, no mundo inteiro. Raramente a falta de conhecimento sobre um perigo é a causa do problema.

Isso não impede que as pessoas — como os líderes — pensem que aprender mais sobre perigos é a solução. Faz-me lembrar da frase atribuída a Einstein: “A definição de insanidade é fazer a mesma coisa repetidas vezes esperando um resultado diferente.”

Então, vamos acabar com essa bobagem. Este não é um problema de aprendizagem; é um problema de certeza. As pessoas fazem coisas como digitar mensagens enquanto dirigem e dirigir sem colocar o cinto porque têm certeza de que nada de ruim acontecerá com elas.

Se tivessem certeza de que esse comportamento as machucaria — ou machucaria outra pessoa —, nunca digitariam mensagens e sempre colocariam o cinto.

Você não precisa acreditar apenas na minha palavra: faça o teste. Imagine dizer a alguém: “Vou obrigar você a dirigir com os olhos vendados a sessenta milhas por hora, em uma estrada rural com veículos vindo na direção contrária”, ou: “Você precisa bater seu carro naquela árvore a sessenta milhas por hora, mas sem colocar o cinto de segurança.”

Essa pessoa nunca faria isso. E provavelmente acharia que você enlouqueceu!

Assumindo um risco

 

Certo. Provável. Possivelmente. Nunca. Cada uma dessas palavras cotidianas é uma medida de probabilidade. Quando se trata de segurança — gerenciar o desempenho em segurança e mandar todos para casa vivos e bem ao final de cada dia —, a probabilidade é a melhor maneira de compreender o risco. Risco é simplesmente uma medida de probabilidade. As chances, que podem variar de certo, provável e possível a incomum, raro e nunca.

É claro que é perfeitamente possível que você veja a questão de outra forma. Esse é um risco que corro ao definir risco dessa maneira. Dessa maneira simples, quero lembrar a todos. Em alguns lugares, o risco é definido como a combinação de probabilidade gravidade. Esse é parte do encanto e do desafio de falar sobre risco: ele tem muitos significados diferentes. A começar pelo fato de ser tanto um verbo — “arriscar-se” — quanto um substantivo — “algo contra o qual você faz um seguro, como uma enchente ou um incêndio”.

Portanto, se você faz parte do grupo que combina probabilidade e gravidade para definir risco, tem todo o direito de fazer exatamente isso. Mas isso não muda o fato de que probabilidade e gravidade são tão diferentes quanto maçãs e laranjas. Combinar maçãs e laranjas cria uma deliciosa salada de frutas, que é sempre a aparência que essa matriz — alto/baixo, baixo/alto, baixo/baixo… — tem para mim.

Além disso, como prever qual será, de fato, a gravidade de um perigo? Algo tão inofensivo quanto uma trena que caiu já se mostrou fatal. Tenho fotos que comprovam isso.

Não cometa o erro de pensar: “Isso nunca vai acontecer”.

Não deixe de aprender isto 

 

Se algo de bom puder resultar de uma história trágica como esta, seria que alguma coisa mudasse para melhor. Francamente, pensar que se trata de uma falha em aprender dificilmente mudará muita coisa. Se você quiser mudar algo com probabilidade muito maior de fazer a diferença, trabalhe para mudar a percepção de risco.

Ou seja, a probabilidade.

Se aquele motorista que digitava a mensagem tivesse pensado: “Olhar para o meu smartphone em vez de olhar para a estrada pode acabar me fazendo bater em um motorista vindo na direção contrária” e aquele motorista sem cinto tivesse pensado: “É muito possível que haja algum idiota por aí que considere enviar uma mensagem mais importante do que olhar para onde está indo; portanto, é melhor eu colocar o cinto e me preparar para o pior”  é altamente provável que o resultado tivesse sido completamente diferente.

Isso é mudar a percepção de risco — e da probabilidade de consequências negativas. É assim que um bom líder como você precisa “gerenciar o risco”.

Não é tão complicado.

Paul Balmert
Outubro de 2018