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Nação dos Fones de Ouvido

31 de outubro de 2019 / Balmert Consulting

Neste mês, Paul examina as lições aprendidas com uma fatalidade em uma obra rodoviária na qual havia fones de ouvido envolvidos. A discussão é essencial para compreender perigos e riscos, tanto para você quanto para as pessoas com quem trabalha. Este talvez seja o boletim informativo mais importante que Paul já escreveu — e ele já escreveu muitos excelentes.

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“Eu, me preocupar?”       ~Alfred E. Neuman  Alheio: sem perceber ou sem se preocupar com o que está acontecendo ao redor de alguém  

Mais cedo ou mais tarde, algo assim estava fadado a acontecer:

Em uma obra rodoviária, Marvin Franklin, de 34 anos, foi atropelado por um caminhão basculante que dava marcha a ré. O laudo do médico-legista mostrou que seus fones de ouvido e seu telefone foram encontrados perto do corpo, mas nunca se confirmou que ele estava com os fones nos ouvidos enquanto caminhava pela obra.  

~News 6 Orlando

Fones de ouvido. Eles estão por toda parte. Olhe ao redor: você verá pessoas usando-os na loja, na calçada, na cafeteria, no trem, no terminal do aeroporto, na academia, na área de treino de golfe, em casa.

E, às vezes, no trabalho. Estou usando os meus enquanto escrevo esta edição do boletim. 

Nós nos tornamos a Nação dos Fones de Ouvido.

Quanto ao que teria causado essa mudança específica na cultura, os benefícios são óbvios. Podemos ouvir o que queremos ouvir. Podemos ignorar tudo – e todos – que não queremos ouvir.  

O que há para não gostar nisso? 

Poder viver em nosso próprio mundinho pode ser maravilhoso, mas, como tudo na vida, isso tem um preço: não percebemos nem nos preocupamos com o que está acontecendo ao nosso redor. 

Em uma palavra: alheios.

Percebendo os Perigos

Desde o momento em que respiramos pela primeira vez, temos nos dedicado plenamente à prática de reconhecer perigos, as coisas que podem nos machucar. É o instinto de sobrevivência, algo que todos nós somos programados para fazer. Se fosse diferente, a maioria de nós nem sequer estaria aqui.

Sim, você sabe disso. Mas, da próxima vez que se sentir inclinado a diagnosticar uma lesão como um caso em que alguém deixou de “reconhecer o perigo”, não se esqueça do que sabe. Provavelmente, esse conhecimento fará com que você procure em outro lugar a causa raiz do problema.

Dito isso, ensinar as pessoas sobre os perigos tem um papel importante no local de trabalho: o que você não sabe pode machucá-lo. Saber da existência de um perigo é uma coisa; levar o perigo a sério é o que mais importa para a segurança.  

Essa é uma ilustração perfeita do que, na lógica, é conhecido como a diferença entre uma condição necessária e uma condição suficiente.  O conhecimento é necessário – mas não suficiente. 

Em tempo real, reconhecer perigos é principalmente um processo sensorial. Usamos nossos sentidos – visão, olfato, paladar, tato e audição – para detectar a presença de coisas com potencial para nos causar danos. O som de um trovão distante no céu nos avisa que há relâmpagos na região. O cheiro de fumaça nos alerta de que algo está queimando. Vemos uma cobra e damos um salto. O leite tem gosto de estragado. Sua mão se aproxima de um fogão quente e, instintivamente, se afasta. 

É possível defender a existência de um “sexto sentido” para detectar perigos? Eu acredito que sim e posso citar exemplos. Talvez você também acredite. Se quisesse acrescentar o uso do “bom senso” à lista, eu não faria objeção.

Ao se aproximar de uma passagem de nível, parece sensato parar, olhar e escutar: o perigo de um trem se aproximando não é tão difícil de reconhecer. Infelizmente, há muitos casos em que isso não acontece. Por isso, muitas passagens de nível são equipadas com um meio secundário de detecção de perigos, na forma de dispositivos de advertência como cancelas, luzes piscantes e buzinas de locomotivas para sinalizar um perigo iminente.

Ainda assim, isso nem sempre é suficiente para fazer com que alguém leve esse perigo a sério.

Esse é outro exemplo de alguém alheio em ação: sem perceber ou sem se preocupar com o que está acontecendo ao seu redor.

Fones nos Ouvidos

Alguém coloca os fones nos ouvidos, começa a ouvir e sai para……. Deixo para você preencher a lacuna: caminhar, fazer compras, exercitar-se, praticar, trabalhar. Os fones afetam a capacidade dessa pessoa de detectar perigos que podem machucá-la?

É claro que sim: há um sentido a menos disponível para detectar o que pode machucá-la, fazendo com que dependa dos outros sentidos para alertá-la sobre um perigo. 

As pessoas fazem isso? O tempo todo. 

Quando fazem isso, elas entendem que estão se tornando alheias aos sons como meio de reconhecer perigos? É claro que sim.

Isso lhes custa alguma coisa quando fazem isso?  Raramente. 

Raramente não é a mesma coisa que nunca. Apenas parece ser.  As pessoas têm certeza de algo sobre o qual não deveriam ter certeza. 

Aí está a raiz do problema.

Quando as Coisas Dão Errado

Então, voltando à abertura: a tragédia na obra. Os investigadores determinarão os fatos e tirarão conclusões com base neles. Esse é o trabalho deles. 

Mas não é o meu. Nem o seu. 

Como líder em sua operação, seu trabalho mais importante é garantir que seus liderados voltem para casa vivos e bem ao fim de cada dia. Aprender com os erros dos outros ajuda sua causa: não é necessário ter experiência direta com cada falha, nem conhecimento pleno e completo de tudo o que dá errado. 

Então, façamos algumas suposições razoáveis sobre esse acontecimento: o fone estava sendo usado no momento do acidente e havia música tocando. Se esse fosse o caso, a audição teria sido removida da lista de meios para reconhecer perigos. 

Vamos combinar essa suposição com os fatos conhecidos pela leitura da notícia. Trata-se de uma obra rodoviária, com muito tráfego de veículos de construção, como caminhões basculantes indo e vindo, para a frente e para trás.

Ou seja, perigos.

Era obrigatório haver um sinaleiro para os caminhões basculantes que estivessem dando marcha a ré. Nenhum estava presente quando Franklin foi atingido por um caminhão em marcha a ré. O motorista do caminhão basculante nem sequer percebeu que havia atingido Franklin.

Essa situação parece um pouco familiar? Este é um exemplo clássico em que várias falhas independentes produzem um evento. Um sinaleiro teria alertado a pessoa sobre o caminhão basculante dando marcha a ré; o motorista poderia ter se recusado a dar marcha a ré sem um sinaleiro. Nenhuma dessas falhas foi culpa da vítima. 

Mas, se o Sr. Franklin tivesse contado com sua audição, é bem possível que tivesse ouvido o caminhão dando marcha a ré em sua direção. Se tivesse ouvido, provavelmente seu instinto de autopreservação o teria tirado da zona de perigo.

Eu, me preocupar?

Quando se trata de segurança, ninguém tem maior interesse pessoal nela do que a pessoa exposta ao perigo. Segurança diz respeito, acima de tudo, à vida dessa pessoa. Isso não significa que não haja efeitos em cadeia: não é difícil imaginar como aquele motorista do caminhão basculante se sentiu ao perceber o que havia acontecido.

Em teoria, o instinto de autopreservação deveria ser mais do que suficiente para fazer com que as pessoas tomassem todas as medidas necessárias para garantir sua segurança. Na prática, não é.

Quanto ao motivo pelo qual isso não é suficiente, é possível elaborar uma longa lista de razões. No topo ou perto dele está a explicação mais simples: as pessoas supõem, equivocadamente, que “Isso nunca vai acontecer comigo”.

No caso da Nação dos Fones de Ouvido, supomos que podemos usar nossos fones na loja, na academia e na calçada porque temos certeza de que nenhum mal jamais nos acontecerá por não conseguirmos ouvir um perigo em potencial.

Pior ainda, sempre que fazemos isso e nada de ruim nos acontece, essa percepção equivocada é reforçada positivamente. É de se admirar que, coletivamente, nos comportemos dessa maneira?

Em uma palavra, esse comportamento coletivo é cultura.

Quanto ao que fazer para mudar a cultura, há duas pequenas medidas que podem ajudar a fazer a diferença. Não use seus fones de ouvido quando não deveria.

E divulgue histórias tristes como esta. 

Paul Balmert
Outubro de 2019