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Prestação de Contas

21 de novembro de 2025 / Balmert Consulting

Neste mês, temos o prazer de apresentar um artigo de Newton Scavone, um dos integrantes mais experientes da equipe de instrutores da Balmert, sediado em São Paulo. Newton começou como cliente, aprendendo e utilizando as ferramentas do MSP, e depois se tornou um dos líderes preparados para ministrar o curso dentro de sua empresa. Nos últimos seis anos, muitos de vocês passaram a conhecê-lo como instrutor da Balmert Consulting. Ele reúne uma sólida credibilidade operacional e uma compreensão clara do que é necessário para fazer essas ferramentas funcionarem no mundo real.

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“Prestação de contas significa assumir responsabilidade, e o senso de responsabilidade é a força mais poderosa que uma equipe ou organização pode ter.”     ~Pat Summit  Foi uma daquelas reuniões que ficam na memória. Hoje, reconheço-a como um Momento de Alta Influência. Havia ocorrido um quase acidente significativo porque uma linha de processo não tinha sido devidamente isolada antes de ser aberta. Chamávamos esse tipo de ocorrência de “incidente com risco à vida”. O evento foi comunicado pela cadeia de comando; a investigação foi concluída e chegou a hora de o Líder da Unidade se envolver. 

Era alguém com quem eu trabalhava muito de perto e conhecia muito bem; um líder muito inteligente, que sabia como usar o poder de sua posição. Ele convidou para uma reunião o gerente da unidade de negócios responsável pela área e pediu que eu participasse, pois eu desempenhava uma função de apoio nas áreas de segurança e meio ambiente. 

Então, lá estávamos nós, os três sentados na sala de reuniões ao lado do escritório do Líder da Unidade. A primeira coisa que ele disse foi: “Obrigado por ser honesto sobre este evento.” Em seguida, foram feitas perguntas, mas sem intimidação nem atribuição de culpa. Isso não me surpreendeu nem um pouco.

  • “Por favor, explique: o que deu errado?”
  • “Na sua opinião, quais eram as possíveis consequências do que aconteceu?”
  • “O que você acha que poderia ser feito para garantir que algo assim não volte a acontecer?”

Tudo isso aconteceu há uma década, quando eu estava aprendendo a prática e o processo de gestão da prestação de contas apresentados em Alive and Well. Eu não estava apenas aprendendo; estava vivenciando aquilo. Observei a linguagem corporal dos dois líderes, o tom e o ambiente da reunião.

Hoje, quando ensino aos líderes as melhores práticas de liderança em segurança, relembro e valorizo esse caso como o exemplo perfeito de um líder cobrando a devida prestação de contas de alguém. 

Minha Experiência

Passei minha carreira de quarenta anos trabalhando para grandes empresas do setor de papel e celulose. Embora alguns líderes tenham me feito valorizar muito a prática de cobrar a prestação de contas das pessoas, posso afirmar que a maioria dos líderes para quem trabalhei nunca a utilizou. Na primeira empresa em que trabalhei, gerenciar a prestação de contas não fazia parte da cultura; atribuir culpa, sim. Olhando para trás, quando o assunto era gerenciar a prestação de contas, consigo reconhecer os erros que cometi ao desenvolver as pessoas que trabalhavam para mim.

A gestão da prestação de contas situa-se entre o processo relativamente simples de corrigir um comportamento e uma medida corretiva formal. Digo “processo relativamente simples de corrigir um comportamento” porque corrigir e orientar comportamentos envolve muito mais do que simplesmente dizer a alguém: “Coloque seu EPI!” Para quem se recusa a usar o próprio EPI, existem as chamadas medidas corretivas, como advertências verbais e registros por escrito no prontuário. 

Cobrar a prestação de contas das pessoas é uma das ações mais importantes que os líderes podem adotar para liderar e gerenciar o desempenho em segurança.

O Processo

Quando algo dá errado, atribuir culpa pode fazer com que alguém não cometa o mesmo erro novamente. Mas a principal motivação passa a ser o medo — inclusive o medo do líder. Gerenciar a prestação de contas é muito mais um processo de aprendizagem: de certa forma, o líder desempenha o papel de professor, ampliando a capacidade do liderado de compreender, mudar e agir de maneira diferente.  A prestação de contas gera adesão à forma correta de fazer algo.

Cobrar a prestação de contas dos liderados não é algo que os líderes tenham uma inclinação natural para fazer. É preciso aprendizado, motivação e autodisciplina para colocar em prática algo novo e diferente. Isso exige um investimento maior de tempo por parte do líder. E é, em grande medida, uma conversa de mão dupla.

Ainda assim, mesmo os líderes que sabem gerenciar a prestação de contas nem sempre a praticam. A cultura dificulta isso. Gerenciar a prestação de contas exige que o líder saia de sua zona de conforto, mude e aja de maneira diferente. Se seus líderes não definirem expectativas nem reforçarem essa prática, é muito pouco provável que façam algo que não seja fácil. 

Então, voltamos à culpa, que é fácil.

Aprendendo o Processo

Gerenciar a prestação de contas começa pelo aprendizado do processo. Não é um processo difícil de aprender, mas a definição do termo exige alguma explicação, principalmente para alunos cujo primeiro idioma não é o inglês. Como ensino principalmente na América do Sul, esse costuma ser o caso.
 
Os dicionários traduzem o termo “accountability” como “responsabilidade”. Como sabemos, em inglês existe uma diferença significativa entre essas palavras, e “responsibility” não é a palavra que explica a essência de cobrar a prestação de contas de alguém. Por isso, traduzi o termo para a expressão em português “prestar contas”, que corresponde melhor à forma como o processo funciona na prática, com o sentido de “dar explicações sobre seus atos”. 

Isso faz sentido e, quando ensino, percebo pela linguagem corporal que os líderes compreendem o processo. Eles também concordam que ele é importante e que existe um amplo espaço entre corrigir um comportamento e aplicar uma medida corretiva — espaço que precisa ser administrado por meio da prestação de contas.

Os alunos costumam me dizer duas coisas. Primeiro, concordam totalmente com a ideia de cobrar a prestação de contas das pessoas. Depois dizem: “Eu gostaria de fazer isso, mas não tenho tempo.” Realmente exige tempo. Porém, considerando todos os problemas que essa prática pode resolver, cobrar a prestação de contas das pessoas é um uso muito valioso do tempo. 

Ensinar o processo aos líderes e dar-lhes a oportunidade de praticá-lo em sala de aula pode fazer uma grande diferença na aplicação desse processo por um líder.

Onde o Processo Começa

Por fim, há outro aspecto muito importante que torna essa prática um grande desafio para o líder: a necessidade de compreender plenamente o que deu errado antes de cobrar a prestação de contas de um liderado. Não é possível cobrar a prestação de contas de alguém sem saber o que essa pessoa fez ou deixou de fazer. Descobrir isso exige um processo diferente: a investigação.

Sim, isso é óbvio. Mas pense nas implicações dessa simples afirmação. A prestação de contas deve ser praticada somente depois que uma investigação formal for realizada e um relatório for elaborado? 

Isso nos leva de volta àquela reunião da qual participei há uma década. O Gerente da Unidade investigou o que havia dado errado, identificou problemas — inclusive alguns causados por ele próprio — e os levou ao conhecimento de seu chefe. Foi isso que levou à reunião.

O que levaria um líder a fazer algo assim? 

Vejo isso como um exemplo de um princípio importante da liderança em segurança: o que gostamos de chamar de Princípio do Diálogo Honesto — líderes e liderados devem uns aos outros honestidade em relação à segurança.
 
Newton Scavone
Novembro de 2025