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Um trabalho simples

29 de novembro de 2019 / Balmert Consulting

Neste mês, Paul analisa as lições aprendidas com uma fatalidade ocorrida durante um trabalho “simples” de limpeza em um restaurante. A discussão é fundamental para entender como percebemos os perigos e assumimos riscos. Ele apresenta insights muito interessantes sobre o que pode fazer alguém se machucar, sofrer ferimentos graves ou algo ainda pior.

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“…leia as instruções de uso do produto.”~Michael Goldberg “Este é apenas um trabalho simples.” Quantas vezes você já pensou isso sobre algo que estava prestes a fazer? Quando algo deu errado, quantas vezes alguém explicou: “Era um trabalho simples.”
 
Às vezes, trabalhos simples são realmente simples; outras vezes, apenas parecem ser. De qualquer forma, não há garantia de que um trabalho simples não possa dar errado nem de que, se der, não causará danos graves. Um exemplo disso: um trabalho simples de limpeza, realizado na cozinha de um bar esportivo. Quando a pessoa encarregada de lavar o piso despejou o produto de limpeza e começou a esfregar, o produto reagiu com outro tipo de produto de limpeza que havia sido derramado ali anteriormente. A combinação se mostrou letal, produzindo gás cloro.
 
Quatorze pessoas — incluindo dois clientes — passaram mal e foram levadas ao hospital. O gerente do restaurante sofreu a exposição mais grave. Quando a equipe evacuou a cozinha, ele voltou correndo, com um rodo na mão, para limpar a sujeira.
 
Ele não sobreviveu à exposição ao cloro. Trabalhos simples
 
Como consultor de gestão interessado em segurança, frequentemente recebo dos clientes suas listas de “como nosso pessoal se machucou”. Ao longo de duas décadas, vi centenas de listas de operações industriais do mundo inteiro, com milhares de exemplos de como as pessoas se machucam. Chamo esses registros de manchetes de lesões: assim como uma manchete de jornal, há informações suficientes para se ter uma ideia do que deu errado. É só isso que procuro.
 
Uma boa manchete revela o perigo, a atividade realizada no momento do evento e o dano sofrido pela pessoa. A manchete do incidente no bar esportivo poderia ser: Exposto a gás cloro ao tentar reduzir o perigo criado pela mistura de dois produtos de limpeza diferentes. Uma coletânea de manchetes de lesões é uma forma útil de compreender as tendências subjacentes nos dados de segurança que nem os relatórios de investigação de lesões nem os indicadores antecedentes e retrospectivos conseguem mostrar.
 
Por exemplo, imagine um exercício simples de classificação de dados: categorizar cada caso que resultou em lesão grave como “uma tarefa complexa e perigosa” ou “uma tarefa simples”. Em um ano típico, em uma operação industrial típica, qual você acha que seria a proporção?
 
Se você leu sobre a tragédia no bar esportivo e refletiu criticamente sobre o assunto, provavelmente está pensando que a maioria dos casos de lesões graves ocorre durante a execução de tarefas relativamente simples. Nesse caso, sua conclusão fundamentada corresponde à minha experiência pessoal.
 
Naturalmente, isso não é apresentado como a conclusão de um projeto de pesquisa; é apenas uma observação simples baseada na análise de muitos casos reais de operações muito parecidas com a sua. Seria bom realizar um exercício semelhante e verificar o que seus dados revelam. Nada como alguns dados para embasar adequadamente sua visão de qualquer problema.
 
Mas, sem o benefício dessa análise crítica — um pensamento mais lento, por assim dizer —, você poderia ter concluído que “são os grandes perigos que provocam lesões graves”. Na prática, praticamente qualquer perigo que você possa imaginar é capaz de causar uma lesão grave. Você simplesmente nunca sabe qual será a gravidade do efeito produzido por determinado perigo — até que algo dê errado. Aí você descobre.
 
Tenho certeza de que a última coisa que aquele gerente imaginaria era que o produto usado para limpar o piso do restaurante pudesse ser fatal para alguém.
 
O problema do “trabalho simples”
 
Quanto ao motivo pelo qual uma tarefa simples tantas vezes é a atividade executada no momento de uma lesão grave, basta observar as estatísticas de segurança para encontrar uma explicação lógica. O denominador da taxa de frequência de lesões corresponde às horas de exposição: são contabilizadas todas as horas trabalhadas por todas as pessoas da operação. Todos estão expostos a perigos relacionados ao trabalho, qualquer pessoa pode se machucar e as horas de todos são contabilizadas.
 
Uma parcela dessas horas vem de pessoas que normalmente não são expostas a tarefas complexas com perigos graves: profissionais administrativos, técnicos e gestores. Portanto, quando alguém que realiza esse tipo de trabalho se machuca, é bem provável que estivesse executando algum tipo de tarefa simples no momento da lesão. Um exemplo disso é o gerente do restaurante reagindo a um problema de limpeza.
 
Dito isso, em qualquer operação industrial há muitas pessoas que executam tarefas complexas e ficam expostas a perigos graves. Por exemplo, em uma operação que produz ou manipula cloro, esses trabalhos podem envolver a transferência de cloro entre tanques, a abertura de uma linha de cloro e a entrada em um tanque onde o produto havia sido armazenado.

Mas, em um dia típico, quanto tempo é dedicado à execução dessas tarefas em comparação com todas as demais tarefas realizadas rotineiramente pelos operadores e pela equipe de manutenção? Sabe, tarefas simples como monitorar, buscar e inspecionar ferramentas e equipamentos, deslocar-se até o local de trabalho e voltar dele e fazer a limpeza após a conclusão do serviço? Na maioria das operações, muito tempo é dedicado a “trabalhos simples” como esses.
 
Siga o raciocínio, faça as contas, e a conclusão ficará clara: os trabalhos simples representam grande parte do que todos fazemos para ganhar a vida — e respondem por um número significativo dos casos em que nos machucamos.
 
Pensar “É um trabalho simples”
 
Estatisticamente, os trabalhos simples representam uma grande parcela da exposição a perigos no ambiente de trabalho. Por outro lado, seria razoável supor que é menos provável se machucar realizando um trabalho simples do que um trabalho complexo e perigoso. Nesse caso, isso levaria à conclusão de que o número de situações em que alguém se machuca fazendo um trabalho simples deveria ser relativamente pequeno.
 
É uma boa hipótese, mas os dados que recebo regularmente de clientes do mundo inteiro a contradizem.
 
Quanto ao motivo pelo qual a prática não corresponde à teoria, não é nada difícil oferecer uma explicação: quando as pessoas consideram o perigo grave e acreditam que provavelmente se machucarão se não tiverem cuidado, elas agem com muita cautela. E não se machucam.
 
É o que passei a chamar de Lei da Cautela: sempre que você tem plena consciência de um perigo que acredita ter grande probabilidade de machucá-lo, age com muito cuidado.
 
O trágico incidente ocorrido na cozinha do bar esportivo ilustra perfeitamente como a Lei da Cautela funciona na vida real. Os bombeiros são chamados a um restaurante porque “algum tipo de gás tóxico está fazendo as pessoas passarem muito mal”. As equipes de emergência chegam usando proteção respiratória e para o corpo inteiro porque têm plena e clara consciência dos danos que um material tóxico desconhecido pode causar.
 
Isso é seguir a Lei da Cautela.
 
No outro extremo, aqueles que receberam o produto de limpeza e foram encarregados de limpar o piso talvez nem tenham pensado em ler o rótulo do produto e, em seguida, avaliar as condições do piso antes de aplicá-lo. Eles pensam: é apenas um produto de limpeza; é apenas o piso de uma cozinha; é apenas um trabalho simples.
 
Não seja tão duro com eles: fazemos a mesma coisa o tempo todo. No trabalho e em casa. Na maioria das vezes, tudo acaba bem. Infelizmente, de vez em quando, não acaba.
 
Quanto ao que fazer para manter você e os outros longe de perigos, sempre que alguém estiver pensando “É apenas um trabalho simples”, a melhor atitude é aplicar a Lei da Cautela: sempre que você tem plena consciência de um perigo que acredita ter grande probabilidade de machucá-lo, age com muito cuidado.
 
Siga essa regra e duas coisas provavelmente acontecerão: muitos daqueles trabalhos aparentemente simples deixarão de parecer assim. E, seja o trabalho simples ou complexo e perigoso, haverá maior probabilidade de ele ser realizado com segurança.
 
Paul Balmert
Novembro de 2019