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Um perigo extremamente sério

28 de fevereiro de 2020 / Balmert Consulting

Neste mês, Paul explica que os riscos que nos assustam são diferentes dos riscos que nos matam. Ele examina as lições que podemos aprender com o coronavírus e como elas podem ajudar líderes como você a garantir que as pessoas voltem para casa vivas e bem ao fim de cada dia.

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“A realidade básica é que os riscos que assustam as pessoas e os riscos que matam as pessoas são muito diferentes.” 
      ~Peter Sandman 

Você está perdendo o sono por causa do coronavírus? Cancelando planos de viagem, liquidando sua carteira de investimentos, estocando proteção respiratória, evitando aglomerações?
 
Se respondeu sim a qualquer uma das perguntas acima, você tem muita companhia. Ao ler as manchetes dos jornais — na primeira página, na seção de negócios ou de esportes, não importa —, você poderia se convencer de que esse vírus é a volta da peste. 
 
E talvez realmente acabe sendo. 
 
Mas talvez não. Da última vez que surgiu algo assim, recebeu o nome de SARS.  Há cerca de duas décadas, a epidemia causou 774 mortes no mundo. Para colocar isso em perspectiva — o que, no fim das contas, é o objetivo desta reflexão —, no ano passado a gripe tirou 80.000 vidas nos EUA. 
 
O tempo dirá como a questão do coronavírus se desenrolará. Independentemente do que aconteça, essa história já proporcionou uma lição muito útil que não tem nada a ver com a saúde mundial e tudo a ver com a forma como nós, seres humanos, lidamos com os perigos.
 
Se a sua empresa tem perigos e tem pessoas, essa é uma lição que você precisa aprender.

Fique atento aos perigos
 
Um perigo é uma fonte de risco: algo que pode machucar você. Os perigos estão por toda parte. A natureza os cria, como micróbios e mosquitos. Os seres humanos também, como aviões, trens e automóveis. Não existe lugar na Terra para onde você possa ir a fim de escapar deles. Que tal tentar se esconder debaixo da cama? Você pode encontrar uma aranha; e, muito provavelmente, haverá poeira. Ambos podem ser prejudiciais à sua saúde.
 
A qualquer momento, você pode parar, observar e fazer uma lista. Garanto que será uma lista longa, repleta de coisas que você sabe muito bem que podem machucá-lo. 
 
Essa é a primeira lição. Ao atingirmos a idade da razão, já conhecemos a maior parte do que pode nos fazer mal, e quase nada do que entra na lista é uma grande surpresa. 
 
Mas normalmente não é assim que conduzimos o processo de ficar atentos aos perigos. Na maior parte do tempo, estamos ocupados demais para dedicar tempo a isso e preocupados com outras coisas. 
 
Felizmente, todos nós nascemos equipados com um sistema interno de detecção de perigos que faz isso por nós. Nosso cérebro avalia constantemente os dados sensoriais recebidos: visão, audição, tato, olfato e paladar. Quando um perigo é detectado, um alarme dispara. Às vezes chamado de instinto de sobrevivência, sem esse sistema estaríamos todos perdidos.
 
Mas nem todos os perigos podem ser detectados pelos nossos sentidos. O monóxido de carbono é inodoro e incolor, e o coronavírus é imperceptível aos nossos sentidos. Para detectar perigos como esses, precisamos recorrer a métodos alternativos. No caso do CO, há o treinamento sobre perigos e as análises de segurança do trabalho — no ambiente de trabalho. No caso do vírus, há as notícias e o boca a boca, que parecem ser meios extremamente eficazes de chamar nossa atenção. 
 
Imagine como seria bom se as pessoas no trabalho levassem os perigos para suas mãos tão a sério quanto levam o perigo para sua saúde representado por algo como o coronavírus.
 
Mas elas não levam, e existe uma razão para isso.
 
Calculando o risco
 
O coronavírus é o exemplo perfeito de perigo: uma fonte de dano à saúde e ao bem-estar humano. Se você está cancelando planos de viagem, evitando aglomerações e estocando proteção respiratória, é porque considera esse vírus uma ameaça real para você.
 
Essa é a ilustração perfeita do risco. 
 
Risco é a probabilidade de que algo ruim nos aconteça.  Para cada perigo, existe um risco. Enquanto o perigo é real, o risco é apenas um número. Medimos o risco como uma porcentagem de probabilidade, maior que 0 e menor que 100. 
 
Partindo do princípio de que você quer ter uma vida longa e próspera, a lógica sugere que é melhor dar mais atenção e tomar mais cuidado com os perigos que têm maior probabilidade de nos causar danos — e de causar os piores danos. 
 
Parece bastante simples, até você colocar a lógica em prática. Então, precisa lidar com os grandes problemas criados por três pequenas palavras presentes nela: provável, piores e nos.
 
Percepção não é realidade
 
Então, sabemos que o coronavírus é um perigo. Quanto ao risco, quem sabe qual é a probabilidade de o vírus realmente nos atingir? Ou, pior ainda, de nos causar um dano fatal? 
 
Apesar de toda a atenção dedicada ao vírus, pouco se falou sobre probabilidades. Isso não impediu que as pessoas levassem o perigo a sério. É justo dizer que isso acontece porque o dano potencial pode ser muito grave. 
 
Assim como o da gripe. 
 
Um alerta para quem tenta prever os danos causados por qualquer perigo: nunca se sabe como essas situações vão terminar. Nas últimas duas décadas, as NOTÍCIAS apresentaram relatos detalhados de pessoas que escaparam de danos graves diante de perigos sérios — e de perigos aparentemente pequenos que se mostraram fatais.
 
Em um mundo perfeito, conheceríamos a probabilidade de cada perigo que encontramos ao longo da vida, começando pelos micróbios. Mas, no mundo real, não conhecemos. 
 
Mesmo que conhecêssemos, até que ponto saber o risco do perigo faria diferença para nós?
 
Nos Estados Unidos, todos os anos há uma comunicação oficial sobre o risco representado por dois dos perigos de maior risco que encontramos regularmente: cigarros e veículos. Sabe-se que ambos causam danos graves, medidos pelo número de mortes. 
 
Por que não nos preocupamos com esses perigos comprovados da mesma forma que estamos nos preocupando com o coronavírus?
 
Percepção do perigo
 
Para entender por que nem sempre seguimos o que a lógica e os dados sugerem que deveria receber nosso maior cuidado, é preciso procurar a explicação em outro lugar.
 
Você provavelmente não se lembra de Love Canal. Na década de 1970, foi um dos acontecimentos que dominaram as manchetes e moldaram as regulamentações ambientais que você conhece tão bem. Resumindo uma longa história: há um século, algum gênio do desenvolvimento imobiliário teve a ideia de cavar um canal e cercá-lo de casas e empresas. Ele o chamou de Love Canal: funcionou em Veneza, por que não funcionaria em Buffalo? 
 
Bem, não funcionou. Com o tempo, o canal abandonado foi usado como local de descarte de produtos químicos industriais tóxicos. A propriedade mudou de mãos algumas vezes e, então, a história deu uma volta completa: depois de aterrado e coberto, Love Canal tornou-se uma área residencial. 
 
Anos depois, aqueles produtos químicos enterrados há muito tempo começaram a chegar à superfície. Imagine descobrir que sua casa está sobre um depósito de resíduos tóxicos: é a combinação perfeita entre o reconhecimento do perigo e a seriedade atribuída às possíveis consequências.
 
Tão a sério que a palavra “indignação” foi usada para descrever a reação. Quem não ficaria indignado?
 
Havia apenas um problema com a história: a probabilidade de o perigo estar causando efeitos significativos à saúde nem de longe correspondia à emoção humana de que isso pudesse estar acontecendo. 
 
De acordo com a American Association For The Advancement Of Science, “os dados do Registro de Câncer de Nova York não mostram evidências de taxas mais altas de câncer associadas à residência próxima ao local de soterramento de resíduos tóxicos de Love Canal em comparação com todo o estado, excluindo a cidade de Nova York. As taxas de câncer de fígado, linfoma e leucemia, selecionadas para atenção especial, não apresentaram elevação consistente.”
 
Esses fatos não fizeram nada para mudar as percepções sobre esse perigo. Quando se trata de “percepção do perigo”, parece haver um padrão.
 
Entendendo a “indignação”
 
Quanto ao motivo pelo qual, quando os dados apontam em uma direção, as emoções frequentemente seguem por um caminho completamente diferente, a melhor explicação veio de um professor de comunicação, Peter Sandman. Faz todo o sentido: como especialista em comunicação, Sandman concentrava-se no elemento humano do processo. 
 
Sandman observou os acontecimentos de Love Canal e considerou todos os perigos e riscos aos quais os moradores estavam expostos. Por que tanta energia e atenção ao perigo encontrado no solo sob suas casas, que comprovadamente tinha pouca probabilidade de causar danos, e um nível de preocupação muito menor com outros perigos graves que comprovadamente tinham alta probabilidade de causar danos?
 
A explicação de Sandman foi a seguinte: os dois fatores que determinam o grau de preocupação com um perigo têm pouco ou nada a ver com o risco — a probabilidade — ou com a gravidade — o quanto o dano pode ser ruim. Em vez disso, os dois fatores que mais importam para quem pode estar em perigo são quem controla o perigo e qual é a aparência do efeito causado por ele. 
 
Quando nós controlamos o perigo — com nossas mãos no volante do carro — e o efeito é comum e corriqueiro — apenas mais um carro destruído —, não levamos o perigo tão a sério. 
 
Mas entregue o controle do perigo a outra pessoa — o piloto da aeronave — e faça com que o efeito seja catastrófico, explícito e inesquecível — destroços de avião no local do acidente — e, nossa, como levamos esse perigo a sério.
 
O perigo e o risco podem ser determinados pela ciência e pelos dados; a percepção do perigo e a avaliação do risco são determinadas pelo espaço de cinco polegadas e meia entre nossas orelhas.
 
Ligando os pontos
 
Então, voltando ao ponto de partida: ao aplicarmos a lógica de Sandman ao coronavírus, a reação faz todo o sentido. O perigo é novo, desconhecido e vem de algum canto distante do planeta. Parece que não temos controle sobre a possibilidade de contrair o vírus. Não é de admirar que ele ocupe o centro das atenções coletivas, independentemente da probabilidade de sofrermos algum dano. 
 
De volta ao seu trabalho, as coisas não são realmente diferentes. Provavelmente há alguns perigos de grande repercussão que se assemelham ao coronavírus e muitos perigos cotidianos e comuns que se parecem mais com dirigir e com a gripe. Os primeiros são fáceis de reconhecer e levar a sério; os últimos têm muito mais probabilidade de causar danos na forma de lesões e são muito mais difíceis de fazer com que as pessoas os levem com a seriedade necessária.
 
Essa é a natureza da “percepção do perigo”.
 
Paul Balmert
Fevereiro de 2020